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Não Somos Daqui

Da Ilíada de Homero

Abril 06, 2020

Homero permanece até hoje um mistério, não se sabendo se terá sido de facto um poeta histórico ou mera construção. Sabe-se contudo (ainda que com muitas incertezas) que pela mão desse homem que viveu oito séculos antes de Cristo na Jónia (actual região da Turquia) terão sido escritas a "Odisseia" e "Ilíada". Esta última foi a primeira a ser escrita, sendo a acção da sua narrativa também precedente à viagem do retorno de Odisseu. Assim fazia-me todo o sentido abordar Homero, nos seus dois únicos poemas épicos a que temos acesso, pelo princípio.

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A "Ilíada" é a obra ocidental mais extensa e antiga, com relevância literária e histórica, de que temos registo. A sua narrativa estabelece-se durante o décimo ano da guerra de Troia, num espaço temporal de 51 dias. Esta guerra inicia-se dez anos antes da narrativa, por conta de Páris, um dos filhos de Príamo, rei de Troia, que decide raptar Helena (à esquerda numa pintura de Evelyn de Morgan, 1898), mulher de Menelau, o então rei de Esparta. Páris foge com Helena para Troia e os aqueus (gregos) iniciam assim uma busca incessante para devolver Helena a Menelau, instalando-se uma longa guerra. A combater por Troia obviamente Páris com o seu irmão Heitor e o pai de ambos, Príamo. Eneias no campo militar também é personagem de relevo e que mais tarde viria a ser ojecto de trabalho por parte de Virgílio na "Eneida". Da hoste dos aqueus surge Aquiles, Agaménon, Pátroclo, Odisseu (Ulisses) e o próprio Menelau, entre outras personagens de relevo. Além do plano terreno da guerra, os deuses no Olimpo focam as suas atenções nas movimentações terrenas, tomando partidos e debelando-se também entre si sobre quem deve sair vencedor.

Aquiles surge de início para pouco depois se tornar ausente, sabemos onde se encontra, vai sendo lembrado e desejado mas é dado logo ao leitor como um ser imperfeito. O herói da Ilíada na minha óptica é o herói que além do ideal é dado em toda a sua miséria. Homem híbrido, filho de uma deusa com um homem, Aquiles, como que capaz de reunir em si o todo existencial, para mim a figura total da "Ilíada". Sendo conhecida a ira de Aquiles também se deveria constatar a indiferença de Aquiles, tão ou mais reveladora do carácter e nenhuma outra personagem ao longo do livro consegue ter a força desta. Só a própria ideia do herói assombra os homens e move as hostes. Por fim Aquiles, depois de uma longa e propositada ausência que gera em nós leitores expectativa tremenda, surge em esplendor para o bem e para o mal. Esta visão dicotómica do herói também a vi aplicada a Heitor um suposto vilão (se assim o pode ser), sendo estas marcas narrativas extremamente inteligentes e que não estão na posterior base da visão do pleno herói e do perfeito vilão. Actualmente pede-se que as personagens sejam simplesmente humanas, com virtudes e defeitos, com dúvidas e sonhos. Na "Ilíada"  já há disto indícios assentes, de que nada é definitivo e definidor nas personagens, peças de barro moldadas, mutáveis. Os deuses capazes de atrocidades que resvalam o terreno, os homens capazes do divino na Terra, e Aquiles a ponte entre planos, o todo.

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E isto leva-me à questão da perspectiva na "Ilíada", que rasga a história e coloca-nos na dúvida em relação a que partido tomar. A legitimidade dos actos que vão surgindo com as atrocidades da guerra, o sangue pelo sangue e a ausência de nisto ocorrer um sentido existencial superior. Por fim Helena, essa mulher geradora de conflito que na verdade nem sabemos se quer realmente voltar com os aqueus, capaz de afeição profunda para com Heitor. A fragmentação narrativa está também presente, as malhas são lançadas e muitas vezes ficam à deriva na composição de um quadro maior, artifícios técnicos que ainda hoje obras pós-modernistas exploram de forma mais exaustiva e que podendo ser meramente defeitos, elevam-se a virtudes. A qualidade imagética da "Ilíada" é impressionante pelo que logo de início pensei estou a ver um filme.

Sabe-se que tudo o que Homero nos dá provavelmente já faria parte do folclore e da tradição oral, contudo é inegável a noção de ofício do homem, o trabalhar não só a história mas a palavra e recursos para entrega da informação. Se pensarmos que não terá vivido mais de 30 anos, conclui-se facilmente que a vida era então outra e os génios poderiam brotar mais cedo. A salientar que li a belíssima tradução do Frederico Lourenço (que prefere a  "Ilíada" à "Odisseia") e que em determinados momentos é difícil nos contermos com a qualidade poética do que é apresentado, refiro-me não só ao tradutor mas ao trabalho do escritor, ainda que percamos o ritmo e sonoridades originais (e que andei a ouvir), há momentos que nos despem. Quis escrever esta opinião sem estar contaminado pela "Odisseia", ou arriscar-me em comparações que para mim serão sempre injustas  poisnão sei ainda qual preferirei, não seria justo diminuir uma obra que para mim não tem tamanho e à qual irei regressar.

Quem vos escreve:

Moço que diz do sonhar ainda querer, gosta de plantas. Acha que tudo na sua vida chega tardiamente, mas chega. Em tempos já foi geek, hoje em dia acha que isso já não diz nada sobre si. Gosta de literatura, leitor assíduo e pontual, vai fotagrafando, até o que lê, sempre com opinião. Não se orgulha de nada e acha que o seu gosto é o melhor, porque é dele.

Preguiçoso, contudo nunca o assumirá pois sobrepõe o dever e responsabilidade, preterindo a mãe de todos os vícios. Adepto de correr, calistenia e já com idade para saber que nada desta vida, de tudo o que vale a pena, nos chega de forma óbvia ou fácil. Nada desta vida, porque não somos daqui.

Não somos daqui

"Não somos daqui" é um blog literal, bem, talvez não tão literal assim. Pela jornada que se inicia haverá tempo para o perceber. Tempo também para se definir terá este blog recém-nascido. Sabendo que não sou daqui, e que ele também não, não de facto, não somos daqui. Quem o disse? Provavelmente já muitos, mas a quem o tomei? Talvez ainda o diga ou haverá alguém que sabendo-o, porque não é daqui, o dirá por mim. Além da subscrição por email pode ser seguido por RSS .

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